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© Texto de
Martha Medeiros
Você ama aquela petulante.
Você
escreveu dúzias de cartas que ela não
respondeu,
você
deu flores que ela deixou a seco,
você levou para conhecer a sua mãe
e
ela foi de blusa transparente.
Você
gosta de rock e ela de chorinho,
você
gosta de praia e ela tem alergia a sol,
você
abomina o Natal e ela detesta o Ano Novo,
nem
no ódio vocês combinam.
Então?

Então, que ela tem um jeito de sorrir
que
o deixa imobilizado,
o
beijo dela é mais viciante do que LSD,
você
adora brigar com ela e ela adora
implicar com você.
Isso tem nome...

Você ama aquele cafajeste.
Ele
diz que vai ligar e não liga,
ele
veste o primeiro trapo que encontra no armário,
ele
escuta Sivuca.
Ele
não emplaca uma semana nos empregos,
está
sempre duro, e é meio galinha.
Ele
não tem a menor vocação para príncipe encantado,
e
ainda assim você não consegue despachá-lo.
Quando
a mão dele toca na sua nuca,
você
derrete feito manteiga.
Por
que você ama este cara ?

Não pergunte pra mim.
Você é inteligente. Lê livros,
revistas, jornais.
Gosta dos filmes de Woody Allen, dos irmãos Cohen
e
do Robert Altman,
mas sabe que uma boa comédia romântica
também
tem o seu valor.
É bonita.
Seu cabelo nasceu para ser sacudido
num comercial de xampu,
e seu corpo tem todas as curvas no lugar.
Independente,
emprego fixo, bom saldo no banco.
Gosta
de viajar, de música, tem loucura por computador
e
seu fettuccine ao pesto é imbatível.
Você
tem bom humor, não pega no pé de ninguém
e
adora sexo.

Com um currículo desses, criatura,
por
que diabo está sem um amor ?
Ah,
o amor, essa raposa!...
Quem
dera o amor não fosse um sentimento,
mas
uma equação matemática:
eu
linda + você inteligente = dois apaixonados.
Não
funciona assim.
Ninguém ama outra pessoa pelas qualidades
que ela tem.
Caso contrário os honestos, simpáticos e não-fumantes
teriam
uma fila de pretendentes batendo à porta.
O
amor não é chegado a fazer contas,
não
obedece à razão.
O
verdadeiro amor acontece por empatia,
por
magnetismo, por conjunção estelar.
Costuma ser despertado mais pelas flechas do cupido
que
por uma ficha limpa.

Ninguém ama outra pessoa porque ela é educada,
veste-se
bem e é fã do Caetano.
Isso
são só referências.
Ama-se
pelo cheiro, pelo mistério,
pela paz que o outro lhe dá,
ou
pelo tormento que provoca.
Ama-se
pelo tom de voz,
pela
maneira que os olhos piscam,
pela
fragilidade que se revela quando menos se espera.
Amar
não requer conhecimento prévio nem consulta ao SPC.

Ama-se justamente pelo que o amor tem de indefinível.
Honestos existem aos milhares,
generosos
tem às pencas,
bons
motoristas e bons pais de
família, tá assim, ó...

Mas ninguém consegue ser
do jeito que o amor da
sua vida é..."
Autora:
Cronista Martha Medeiros


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