© Texto de Lisiê Silva.

Tudo começou em uma noite de verão, no final da década de 40,
quando um jovem cearence, moreno-claro, montado em seu cavalo,
chegou em uma festa de casamento, lá no sertão do Ceará.
Os caminhos que ele cavalgava, eram iluminados pela luz do Luar.
 
O Luar do sertão, que também iluminava uma jovem mulher,
que se arrumava para ir na mesma festa,
uma jovem de pele muito clara
e olhos infinitamente azuis.
 
Encontraram-se pela primeira vez nesta festa,
e no primeiro olhar, apaixonaram-se.
 
Conversaram sobre suas famílias
e descobriram que eram primos legítimos.
Dançaram durante toda a noite,
e se despediram com uma promessa.
 
Estavam felizes por terem-se encontrado,
mas existia uma pontinha de tristeza em seus corações,
pelo fato do jovem moreno estar de viagem marcada,
para o dia seguinte, sem nenhuma previsão de quando voltaria.
 
Que peça o destino lhe pregara! Justamente agora,
que encontrara o seu grande amor.
 
Naquela despedida, ele prometeu à ela que um dia voltaria,
e que casaria-se com ela. Ele a fez prometer que o esperaria.
 
E ela prometeu... e esperou...
esperou por muito tempo.
O seu coração dizia que tinha que esperar...
que tinha que acreditar!
Que tinha que confiar nas palavras daquele jovem moreno,
 apaixonado por ela.
 
Ela acreditou, e durante esse tempo de espera,
ela descartou todos os pretendentes que apareceram,
inclusive um grande fazendeiro que se encantara por ela.
Era rico e poderoso, mas não conquistou seu coração.
Por quê seu coração já tinha dono,
seu coração já pertencia ao jovem moreno,
que prometeu a ela que um dia voltaria.
 
O tempo passou e ela não se esquecera dele.
Nove anos depois daquele encontro, o jovem voltou.
Percorreu meio mundo,
mas voltou para casar-se com aquela jovem
que ficara esperando por ele.
Ele voltou por que não conseguiu esquecer  daqueles olhos,
infinitamente azuis, pelos quais se apaixonara.
 
Alguns dias depois, casaram-se, lá mesmo,
em uma capela, no interior do sertão.
Um casamento com uma grande festa,
como todas as festas daquela época,
uma festa que durou dois dias e duas noites,
com muito forró, sanfoneiro vindo de longe,
só pra tocar na festa, com muita churrascada,
xote e "arrasta pé".
 
Após o casamento, viajaram para o Amazonas.
Passaram por Manaus rapidamente e seguiram para a Bolívia.
Passaram pouco tempo lá e adentraram o estado do Acre.
 
Lá no Acre, o jovem trabalhava como seringalista,
morando no meio da mata,
correndo todos os riscos, principalmente nas madrugadas,
quando as onças cercavam seu casebre de madeira,
e sua jovem esposa ficava apavorada com
o barulho que as onças faziam, à procura de alimento.
 
Mas foi lá, no meio do seringal, que ele ganhou algum dinheiro,
enquanto vendia a borracha, colhida com suas próprias mãos.
 
Para ele, valia correr riscos, pois sabia que ao final do dia,
sua amada o esperava em casa, cheia de saudades.
 
Viveram durante 3 anos, em uma comunidade de seringalistas,
que tornaram-se amigos e ajudavam-se mutuamente.
Naquela época nasceram seus dois primeiros filhos,
primeiro uma menina, deram-lhe o nome de Liduína,
Dois anos depois, nasceu seu segundo filho,
deram-lhe o nome de Francisco.
 
Era início dos anos 60, 
quando eles resolveram sair de lá, e ir morar em Manaus.
Logo perceberam que a vida em Manaus seria melhor,
principalmente para a criação dos filhos.
 
Chegando em Manaus, ele comprou uma casa e um pequeno mercado,
 e tornou-se comerciante. Ele era analfabeto, fugira cedo da escola,
 mas sabia fazer conta melhor do que muitos.
Ele não tinha estudos, mais era dotado de vastos conhecimentos,
 uma sabedoria adquirida na escola da vida.
 
Foi em Manaus que nasceu sua terceira filha,
deram-lhe o nome de Lisiê.
Depois tiveram mais um filho, e deram-lhe o nome de José.
em seguida, mais duas meninas: Lisiene e Liseneide.
 
Essa é a história dos meus pais,
uma história que está gravada nas minhas lembranças,
desde que eu era muito pequenina.
Lembro que meu pai chegava em casa,
 no final do dia, e gostava de sentar-se conosco na varanda,
e contava para nós, as suas histórias, que por sinal,
deixavam minha mãe muito feliz.
 
As lembranças mais antigas que eu tenho do meu pai,
vem desde a época em que eu tinha uns 2 anos de idade, (1964).
Meu pai, tinha uma forma única de criar os filhos.

Um pai severo, o que ele falava, era lei para nós.

Meu pai partiu aos 63 anos, em uma noite de São João,
quando o céu estava todo iluminado.
Isto foi há 10 anos atrás, mas até hoje eu sinto saudades e o admiro,
principalmente pela sua forma de se fazer ser respeitado,
de saber criar filhos obedientes,
que nunca fugiram das normas impostas por ele.
 
 Ele nos criou de uma forma muito rigorosa, não era dado a carinhos,
abraços e beijos nos filhos. Mas ele se deixava abraçar e beijar.
 
Ele nos amava do jeito dele.
Nos amava através dos cuidados,
 da preocupação constante em não nos deixar faltar nada.
Nos amava através dos elogios que nos elevava,
e nos tornava confiantes.
 
Nos amava ao nos transmitir seus exemplos de força,
fé e coragem em acreditar na vida, em lutar,
principalmente que tivéssemos força e coragem
para trabalhar e não se deixar abater pelos problemas rotineiros.
 
 
Era assim que o meu pai nos amava,
 através de sua presença constante,
 em todas as fases de nossas vidas.
Um pai sempre presente.
 
Lembro que ele gostava de nos levar para passearmos
 na sua camionete, nas tardes de domingo.
Ou para tomarmos banho de rio,
nas tardes quentes de sábado, nos idos anos 70.
 
Através de muito trabalho, meu pai, mesmo sendo analfabeto,
conseguiu prosperar na vida.
 
Nos nossos Natais, nunca nos faltou um presentinho,
que ele fazia questão que fosse surpresa.
 
Aos domingos, ele colocava na vitrola, os LP's do Luiz Gonzaga,
Altemar Dutra, Aguinaldo Timóteo, para tocar durante o dia todo.
Era o jeito dele de mostrar que estava alegre.
 
Lembro de um dos Natais da minha infância,
 em que ele presenteou cada filho com um instrumento musical.
Eram violões, cavaquinhos, órgãos, sanfonas e até pandeiro.
Ele queria que soubéssemos tocar algum instrumento musical.
Isto não aconteceu, mas valeu a tentativa, pai!
 
Como isto não aconteceu,
no Natal seguinte, cada um ganhou uma bicicleta.
Aí a farra foi geral.
 
Ele sabia como colocar um sorriso nos nossos rostinhos e
e uma porção de felicidade nos nossos corações.
 
Ele me ensinou a ser otimista,
e ver sempre o lado bom de todos os acontecimentos.
Já nos seus últimos anos de vida, meu pai já não era tão rigoroso,
estava ficando velho, seu coração estava ficando doce.
 
A medida que o tempo ia passando,
ele mostrava-se cada vez mais amável.
 
Meu pai, onde você estiver, receba o meu amor,
o meu carinho e a minha admiração por você.
 
Eu te amo, meu pai.
*Luiz Pereira Filho*
Fica com Deus.

 Lisiê.

Autoria: Lisiê Silva

09/ Ago/2003

(Direitos autorais reservados)

É permitida a divulgação deste texto, mantendo o nome da autora.

 

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